Cubatão nas ‘baladas’ europeias dos anos 1980

09/04/2017

No dia em que Cubatão completa 68 anos de emancipação político-administrativa, este blog traz uma história desconhecida e surpreendente. Em 1982, auge da disco music na Europa, uma balada fez alemães mexerem o esqueleto e refletirem sobre a industrialização desenfreada no hemisfério sul. Prepare o glitter e as polainas para conhecer uma das canções mais surreais de todos os tempos!

As responsáveis pela primeira “disco music de protesto” do mundo

A girl band “A La Carte” foi formada em 1978, na Alemanha Ocidental, e durou até 1985, com várias formações. Com hits do naipe de When the Boys Come Home, Do Wah Diddy Diddy, Ring Me, Honey e Viva Torero, o grupo era presença certa nos programas de TV e nas paradas do rádio de uma Europa que ainda vivia as consequências da Guerra Fria, com o infame Muro de Berlim ainda de pé.

Enquanto no Brasil, que vivia os estertores da Ditadura Militar, pouco se falava da poluição do ar desenfreada pela qual vivia Cubatão e suas tragédias subsequentes, o assunto gerou muita atenção e preocupação na Europa. O movimento ambientalista começava a ganhar força e diversos especialistas começaram a estudar o fenômeno que acontecia naquela então desconhecida cidade do hemisfério sul. Tal tema suscitou muitas reportagens e causou comoção do povo europeu.

O choque com as imagens registradas pela BBC no “Vale da Morte” à época foi tão grande que comoveu o trio pop alemão. Após uma discografia baseada em músicas sobre amor e dançar a noite toda, em um belo dia de 1982 o grupo resolveu fazer a primeira “dance music de protesto” da história. No álbum The Wonderful Hits Of A La Carte, Jeanny Renshaw, Linda Daniels e Joy Martin presentearam o mundo com a surpreendente e indescritível música “Cubatao”.

Tendo como personagem principal um “garoto de olhos castanhos” chamado Angelo (!), a letra composta por Martin Herbert, John Feechan, Simon Denbigh, Robert Priestly e Alan Mogg é um verdadeiro manifesto e um apelo para que a terra que antes tinha “abelhas e árvores cheirosas” pudesse ser novamente um “paraíso lá no sul, no Brasil”.

Hoje, felizmente, os tempos são outros. Cubatão ainda combate o problema da poluição, mas recuperou sua fauna e flora, trabalho reconhecido internacionalmente. Os tempos sombrios estão no passado.

Aumente o som e confira abaixo essa verdadeira pérola da disco music dos anos 1980. Pela primeira vez, traduzida para o português. Nostalgia e surpresas à la carte de uma cidade que ainda rende muitas histórias.

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Relembrando a tragédia que nunca deve ser esquecida

25/02/2014
Alguns dos 93 corpos oficialmente encontrados após a tragédia. Outras centenas desapareceram sob as cinzas (imagem: Reprodução/TV Globo)

Alguns dos 93 corpos oficialmente encontrados após a tragédia. Outras centenas desapareceram sob as cinzas (imagem: Reprodução/TV Globo)

Todos somos vítimas do incêndio que atingiu a Vila Socó naquele fatídico fevereiro de 1984. Vítimas do progresso desenfreado, das agressões ao meio ambiente, da desigualdade social.

O fogo destruiu incontáveis vidas, sonhos, histórias. Mas a tragédia que fez o mundo chorar acabou sendo fundamental para que o mundo também abrisse os olhos, despertasse para o grave problema ambiental e social que o dominava. O problema não era Cubatão, Bhopal, Kuala Lumpur, Chernobyl. Éramos nós.

Vila Socó foi fundamental para o renascimento de Cubatão. Depois daquela madrugada de 24 para 25 de fevereiro de 1984, passaram a fazer parte da nossa vida conceitos como ecologia e justiça social. Nossa cidade descobriu e ensinou ao mundo o quão poderosa é uma sociedade quando se une por uma causa em comum. E nenhuma causa é mais nobre que a nossa própria sobrevivência.

Nos dias e meses seguintes à tragédia, Cubatão foi o principal assunto nacional. Um batalhão inédito de jornalistas e equipes de rádio e TV se revezavam para informar ao País e ao mundo os desobramentos do episódio. Revistas tiveram que interromper a impressão de suas edições especiais de Carnaval para atualizar seus noticiários da semana. O cinza invadia as capas outrora coloridas.

Quem estava em Cubatão nessa época não esquece as imagens, os cheiros, as sensações de angústia e impotência que imperavam em todos, de autoridades a experientes repórteres e heróicos bombeiros. Todos foram transformados. Nos tornamos mais humanos após Vila Socó.

Dos escombros, surgiu a Vila São José, hoje um núcleo urbanizado e regularizado, que sedia um dos principais centros de lazer da Cidade, a Praça da Cidadania.

Mas a cada dia, a luta contra o fantasma do Vale da Morte deve persistir. Não podemos nos acomodar. Em respeito aos que se foram há 30 anos, e ao futuro de nossos filhos, a Vila Socó precisa continuar viva em cada um de nós.

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A seguir, imagens da cobertura da imprensa à época. Repare que as revistas Veja e Manchete tiveram que atualizar suas edições de carnaval, que já estavam rodando nas gráficas, o que forma uma constrangedora contradição entre a folia das imagens coloridas e o texto fúnebre dos destaques.

Agradecimentos ao jornalista Carlos Pimentel Mendes (site Novo Milênio) e ao Arquivo Público Municipal de Cubatão.

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