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Dois homens, uma cidade

Qualquer cubatense com mais de 25 anos ainda tem lembranças da maior rivalidade que essa cidade já viu na sua história. Ou você era Nei Serra ou era José Osvaldo Passarelli.

Foram seis mandatos consecutivos, um alternando com o outro. E cada vez mais projetos faraônicos, ousados. Uma das anedotas desse período era que os muros dos próprios municipais ficavam cada vez mais grossos a cada mandato, já que cada prefeito os pintava com sua cor de preferência.

Quem foi criança naquele tempo, como eu, lembra das visitas regulares que Passarelli fazia às escolas, onde todos reunidos no pátio participávamos do hasteamento das bandeiras. Cubatão é uma das poucas cidades no País onde as pessoas sabem, de cor, o hino municipal. Resquício dessa época.

Ambos foram indicados pela Ditadura como prefeitos biônicos. Ambos foram eleitos pela população na Nova República, com votações consagradoras. Nenhum deles administrou Cubatão sob a Lei de Responsabilidade Fiscal, o que seria bastante interessante de se ver.

Com a saída de Passarelli, acaba uma era em que uma rivalidade impulsionava a cidade e mobilizava a política local como jamais vai ocorrer novamente. Que ele encontre o descanso, após uma árdua batalha.

Foto: folheto Cubatão – Um Governo com o Povo – Prefeitura Municipal de Cubatão, janeiro de 1987 (arquivo site Novo Milênio)
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Cubatão nas ‘baladas’ europeias dos anos 1980

No dia em que Cubatão completa 68 anos de emancipação político-administrativa, este blog traz uma história desconhecida e surpreendente. Em 1982, auge da disco music na Europa, uma balada fez alemães mexerem o esqueleto e refletirem sobre a industrialização desenfreada no hemisfério sul. Prepare o glitter e as polainas para conhecer uma das canções mais surreais de todos os tempos!

As responsáveis pela primeira “disco music de protesto” do mundo

A girl band “A La Carte” foi formada em 1978, na Alemanha Ocidental, e durou até 1985, com várias formações. Com hits do naipe de When the Boys Come Home, Do Wah Diddy Diddy, Ring Me, Honey e Viva Torero, o grupo era presença certa nos programas de TV e nas paradas do rádio de uma Europa que ainda vivia as consequências da Guerra Fria, com o infame Muro de Berlim ainda de pé.

Enquanto no Brasil, que vivia os estertores da Ditadura Militar, pouco se falava da poluição do ar desenfreada pela qual vivia Cubatão e suas tragédias subsequentes, o assunto gerou muita atenção e preocupação na Europa. O movimento ambientalista começava a ganhar força e diversos especialistas começaram a estudar o fenômeno que acontecia naquela então desconhecida cidade do hemisfério sul. Tal tema suscitou muitas reportagens e causou comoção do povo europeu.

O choque com as imagens registradas pela BBC no “Vale da Morte” à época foi tão grande que comoveu o trio pop alemão. Após uma discografia baseada em músicas sobre amor e dançar a noite toda, em um belo dia de 1982 o grupo resolveu fazer a primeira “dance music de protesto” da história. No álbum The Wonderful Hits Of A La Carte, Jeanny Renshaw, Linda Daniels e Joy Martin presentearam o mundo com a surpreendente e indescritível música “Cubatao”.

Tendo como personagem principal um “garoto de olhos castanhos” chamado Angelo (!), a letra composta por Martin Herbert, John Feechan, Simon Denbigh, Robert Priestly e Alan Mogg é um verdadeiro manifesto e um apelo para que a terra que antes tinha “abelhas e árvores cheirosas” pudesse ser novamente um “paraíso lá no sul, no Brasil”.

Aumente o som e confira abaixo essa verdadeira pérola da disco music dos anos 1980. Pela primeira vez, traduzida para o português. Nostalgia e surpresas à la carte de uma cidade que ainda rende muitas histórias.

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Relembrando a tragédia que nunca deve ser esquecida

Alguns dos 93 corpos oficialmente encontrados após a tragédia. Outras centenas desapareceram sob as cinzas (imagem: Reprodução/TV Globo)
Alguns dos 93 corpos oficialmente encontrados após a tragédia. Outras centenas desapareceram sob as cinzas (imagem: Reprodução/TV Globo)

Todos somos vítimas do incêndio que atingiu a Vila Socó naquele fatídico fevereiro de 1984. Vítimas do progresso desenfreado, das agressões ao meio ambiente, da desigualdade social.

O fogo destruiu incontáveis vidas, sonhos, histórias. Mas a tragédia que fez o mundo chorar acabou sendo fundamental para que o mundo também abrisse os olhos, despertasse para o grave problema ambiental e social que o dominava. O problema não era Cubatão, Bhopal, Kuala Lumpur, Chernobyl. Éramos nós.

Vila Socó foi fundamental para o renascimento de Cubatão. Depois daquela madrugada de 24 para 25 de fevereiro de 1984, passaram a fazer parte da nossa vida conceitos como ecologia e justiça social. Nossa cidade descobriu e ensinou ao mundo o quão poderosa é uma sociedade quando se une por uma causa em comum. E nenhuma causa é mais nobre que a nossa própria sobrevivência.

Nos dias e meses seguintes à tragédia, Cubatão foi o principal assunto nacional. Um batalhão inédito de jornalistas e equipes de rádio e TV se revezavam para informar ao País e ao mundo os desobramentos do episódio. Revistas tiveram que interromper a impressão de suas edições especiais de Carnaval para atualizar seus noticiários da semana. O cinza invadia as capas outrora coloridas.

Quem estava em Cubatão nessa época não esquece as imagens, os cheiros, as sensações de angústia e impotência que imperavam em todos, de autoridades a experientes repórteres e heróicos bombeiros. Todos foram transformados. Nos tornamos mais humanos após Vila Socó.

Dos escombros, surgiu a Vila São José, hoje um núcleo urbanizado e regularizado, que sedia um dos principais centros de lazer da Cidade, a Praça da Cidadania.

Mas a cada dia, a luta contra o fantasma do Vale da Morte deve persistir. Não podemos nos acomodar. Em respeito aos que se foram há 30 anos, e ao futuro de nossos filhos, a Vila Socó precisa continuar viva em cada um de nós.

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A seguir, imagens da cobertura da imprensa à época. Repare que as revistas Veja e Manchete tiveram que atualizar suas edições de carnaval, que já estavam rodando nas gráficas, o que forma uma constrangedora contradição entre a folia das imagens coloridas e o texto fúnebre dos destaques.

Agradecimentos ao jornalista Carlos Pimentel Mendes (site Novo Milênio) e ao Arquivo Público Municipal de Cubatão.

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