O terceiro escalão

22/10/2009

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A política e o poder público brasileiro sofrem com uma terrível síndrome há séculos. Um grupo de agentes que mais atrapalha que ajuda, muitas vezes responsáveis por naufragar projetos elaborados com suor e lágrimas por muito e muito tempo. Estou falando do famigerado terceiro escalão.

Não estou generalizando e falando de toda a classe dos servidores públicos. Quase a sua totalidade (diria 99,5%) é composta de gente trabalhadora e honesta, seja ela concursada ou não. O problema é que uma ínfima parcela é formada por verdadeiros parasitas políticos, seres que se antecipam à vontade do chefe e realizam as mais diversas manobras ou pura panfletagem visando o carinho ou promoção salarial do superior ou responsável por sua indicação.

Cubatão sempre viu muito esse fenômeno. Pessoas que sempre, de um jeito ou de outro, estão nas gestões municipais, sejam elas de direita, centro ou esquerda. Indicados políticos que mesmo locados no subsolo do Paço Municipal agem como se fossem melhores amigos do Chefe do Executivo. E para conseguir um cargo melhor ou, quem sabe, uma chefia, não medem esforços nem escrúpulos.

Muitos fazem papel de ridículo ou impõem essa condição a seus colegas. Outros fazem propaganda aos quatro cantos ou organizam verdadeiras torcidas organizadas em favor do secretário, prefeito ou vereador. O mundo pode estar desabando aos pés do chefe, mas para o “terceiro-escalonado” está tudo às mil maravilhas:

– Ele contratou uma empresa sem licitação? Mas olha como o serviço público melhorou!

– Ele nomeou pessoas de fora? Mas esses abnegados são cubatenses de coração!

– Fulano não deixa roubar na Administração e quem diz isso é porque não conseguiu cargo!

E por aí vai. Sou um pouco radical e defendo que apenas uma pequena porcentagem de servidores sejam nomeados. Claro que um agente público precisa de pessoas de confiança próximo a ele, que poderiam ser apenas os seus secretários e assessores. O resto, que entre pela competência, mostrada por meio de concurso público.

Há quanto tempo não vemos um processo seletivo assim em Cubatão? Já estava na hora de algo nesse sentido começar a ser planejado. Há órgãos inteiros (sejam eles na Prefeitura ou na Câmara) compostos grande parte por indicados políticos. Assim não há Caixa de Previdência que aguente!

Ou as autoridades começam a pensar as nomeações e funções gratificadas ou chegará o dia em que a máquina inchará tanto que entrará em colapso. Infelizmente, esse momento não está muito longe.

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Cubatão mudou. Mas não o avisou

15/10/2009

Léo Jaime e Fernanda Lima, a dupla do programa 'Amor & Sexo', da TV Globo. Foto: Divulgação/TV Globo

O brasileiro em geral é muito bem-humorado, gosta de fazer brincadeiras. E uma de nossas modalidades favoritas é lidar com os estereótipos. Esse gênero consagrou os programas humorísticos e até hoje o vemos com bastante frequência nas telinhas e nas rodas de conversa entre os amigos. E foi uma dessas brincadeiras que novamente acordou a população cubatense de que ainda temos um triste legado.

Há cerca de duas semanas, durante o programa Amor & Sexo, da TV Globo, a apresentadora Fernanda Lima perguntou ao crooner da banda do programa, o cada vez mais inchado cantor Leo Jaime, qual havia o lugar mais estranho que ele havia tido relações sexuais. A resposta veio na lata: Cubatão.

Não sei se o ato carnal aconteceu no extinto Savage Motel, atrás do Centro Esportivo Castelão ou no meio da Vila Parisi, mas a piadinha mequetrefe mexeu com os ânimos de muitos cubatenses, principalmente via internet, e gerou até uma moção de repúdio da Câmara.

Tudo bem, ele pegou pesado, mas nós também passamos da conta ao dar importância a isso. Eu mesmo era conhecido como o “cubatense” na faculdade de jornalismo, pois era o único da cidade em minha classe. Ouvi todos os tipos de brincadeiras e nenhuma chegou a me tirar do sério. Pelo contrário, entrava no jogo e criava sacadas geniais, modéstia a parte, a respeito de meus colegas santistas, vicentinos e até mongaguaenses. Um dia, até, causei frisson ao ir estudar ostentando uma bela camisa do Cubatense, time de futebol de vida curta. Não processei ninguém pelas brincadeiras e ninguém também o fez.

Na televisão, cansei de ouvir pessoas brincando com Cubatão. No finado programa Sai de Baixo, o personagem de Miguel Falabella cansou de usar nossa cidade como mote de suas piadas. E eu ria. Ria porque nós damos razão a isso.

Um dos pontos fraquíssimos de Cubatão sempre foi e continua sendo a sua divulgação. Ganhamos o reconhecimento da ONU como exemplo de recuperação ambiental, temos parques ecológicos exuberantes, guarás-vermelhos, monumentos da Serra do Mar. E mostramos isso ao mundo? Não! Qual programa turístico essa Cidade tem a oferecer? Um belo tour pelo parque industrial, para conhecer as maravilhosas chaminés da Usiminas ou a novíssima termelétrica da Petrobras, com um vazamento de amônia incluído?

Se um pobre turista que parar por aqui quiser chegar ao Cotia-Pará, como o coitado vai conseguir isso? Pegando um ônibus circular que para a quarteirões de lá e ainda ter que andar centenas de metros e atravessar uma passarela sem identificação ou segurança? Corajoso esse cara!

Felizmente, o passado onde merecíamos a triste alcunha de “Vale da Morte” acabou. Mas para que o Brasil e o mundo saibam disso e mudem seus conceitos, nós precisamos fazer uma coisa importante: contar para eles. Senão, o pobre do Leo Jaime não voltará para ver estrelas em uma bela noite cubatense de amor e sexo.


Prestação de contas

07/10/2009

Este post é mais um esclarecimento aos mais de 2 mil visitantes únicos deste espaço.

Ultimamente o ritmo de atualização deste blog tem diminuído. Explico.

Quando iniciei este espaço, no final de outubro do ano passado, estava em um período de “entressafra”, onde a carga de trabalho era leve e tinha mais tempo de atualizar o blog com frequência. Hoje, felizmente, as coisas são diferentes.

Estou em um momento profissional muito bom, o qual lutei arduamente para alcançar. Trabalho atualmente em três frentes, que cada vez mais têm me ocupado o tempo.

Quem me conhece e convive comigo sabe que muita coisa aconteceu ultimamente. Antes de mais nada sou um jornalista, um profissional que lida com informação. Política não é comigo e sei muito bem dividir uma coisa da outra. Todos para quem trabalho sabem disso e respeitam muito bem essa diferença.

Mantenho minhas amizades, independente de serem situação ou oposição. O importante não é a filiação partidária, mas sim a índole, a moral. Tenho a felicidade de ter isso como mandamento.

Não posso afirmar que todo dia este espaço terá novidades, mas garanto que aqui sempre será um espaço democrático, apartidário e, essencialmente, cubatense.


Quando a política fala mais alto

01/10/2009

Eclair argumenta com manifestantes. Foto: Allan Nóbrega

Decepção. Esta é a palavra que define o que aconteceu nesta quarta-feira (31) no Bloco Cultural. Um evento – que até agora está sem definição, mas que com certeza não pode ser chamado de audiência pública – promovido pelo Governo do Estado para apresentar o famigerado e polêmico Programa de Recuperação Socioambiental da Serra do Mar, gerou protestos, bagunça e factóides políticos, menos o principal: esclarecer aos moradores das Cotas presentes os objetivos e o funcionamento do projeto.

Desde a véspera, já se sabia que os ânimos estariam agitados e a disputa política estaria armada. Por ordem de membros do Palácio dos Bandeirantes, o diretório municipal do PSDB se reuniu na terça-feira à tarde para traçar estratégias de defesa do programa durante o evento do dia seguinte. Por outro lado, o diretório municipal do PT também se movimentou e elaborou um manifesto público, que foi entregue durante a reunião no Bloco.

Quando o atual coordenador do programa, o polêmico coronel da Polícia Militar Elizeu Eclair Teixeira Borges, chegou ao recinto, o sinal verde estava dado. Dezenas de manifestantes trajando camisetas exigindo uma audiência pública sobre o projeto desenrolaram suas faixas e começaram a bradar para as equipes de TV que cobriam o evento. Eclair, já acostumado a protestos e caras feias, mal se importou e continuou a falar com a imprensa. Disse que não via movimentação política nos protestos e disse que considerava normal a situação. Quem não tinha o mesmo treinamento militar chegou a se assustar.

O estopim final foi a contratação de um mediador independente, que fez questão de dizer que não tinha ligações com o Governo do Estado e que tinha sido chamado apenas para o evento. Melhor que não fosse. Rígido e por vezes falando alto demais, tentou em vão combater cada grito e questionamento dos manifestantes. Ao dizer que não formaria uma mesa e que as autoridades responderiam aos questionamentos da plateia e poucos minutos depois fazer exatamente o contrário, a bomba estourou.

Gritaria, protestos, escândalo, perplexidade. Os manifestantes, que dizem representar as partes envolvidas, misturando moradores das Cotas com habitantes do Jardim Casqueiro, bradaram e ensaiaram uma retirada, dizendo que não teriam espaço no evento.

Tentando consertar a situação, mais de 90 minutos depois do início da reunião, o mediador chamou as autoridades municipais, sem antes dizer, desastrosamente, que não havia representantes do município presentes. Os manifestantes ficaram e grande parte deles prostrou-se no palco, atrás dos representantes estaduais.

A partir daí, nove em cada dez pessoas da sociedade pré-inscritas para falar e/ou fazer perguntas acabou criticando severamente a postura do Governo do Estado e o programa. Muitos integrantes do movimento protestante. Outros, reconhecidos líderes partidários, tanto do PSDB quanto do PT. Eclair mantia-se impávido, tentando argumentar a cada reclamação, muitas vezes sem sucesso, frente ao barulho provocado pelos que manifestavam. E assim foi até o início da noite.

Acesse duas versões sobre o programa: uma do Governo do Estado e outra da Prefeitura de Cubatão.

Caixa com faixas dos protestantes esquecida atrás do palco do Bloco. Foto: Allan NóbregaFalta menos de um ano para as eleições de 2010, que dividirá grande parte dos eleitores em duas frentes: a tucana e a petista. Do lado do Governo de José Serra, o projeto de recuperação da Serra do Mar pode ser a sua grande vitrine política para o pleito presidencial. Para o lado vermelho, é complicado abrir espaço para o grande projeto tucano, do qual será apenas coadjuvante e não terá participação.

Aliado à truculência e falta de diálogo, o palco para um triste espetáculo está armado. E o próximo round desta luta já está marcado: dia 14, às 18h30, na Capela Nossa Senhora Aparecida (Rua 7, 351, Pinhal do Miranda). Que o espírito conciliador e de bom senso do falecido Rubens Lara impere e que os mais afetados no meio deste furacão, os moradores de Cubatão, saiam ganhando.


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